Criação: Justin Simien
Ano: 2017
Gênero: Drama, Comédia
Temporada: 1ª
País: EUA
Estrelado por: Logan Browning, Antoinette Robertson, Brandon P Bell.


Sinopse: As mais refinadas faculdades americanas podem representar uma enorme carga de estresss para seus alunos. Tensões sociais, a pressão acadêmica e o medo que vem com a chegada à idade adulta podem ser aterrorizantes. Pior que isso, só se você for um afro-americano, tendo que lidar com os alunos majoritariamente brancos e os estigmas associados a você pela sociedade.

Estigmas. Essa é a palavra ideal para começarmos a falar desta série!

Bom, a série Cara Gente Branca (do original Dear White People) é uma adaptação norte-americana do longa-metragem de mesmo nome, estrelado em 2014, e premiado no Festival Sundance. A série gira em torno de estudantes negros que sofrem uma série de ataques racistas (tantos tanto nas relações sociais estabelecidas no campus, quanto institucionais) em uma Universidade onde a maioria dos estudantes são brancos. Toda a trama começa por causa de uma festa no estilo blackface (uma expressão dada para a caracterização de personagens do teatro com esteriótipos racistas atribuídos aos negros. Podemos citar como exemplo a "nega maluca"). A primeira impressão que tive quando soube que a Netflix iria adaptar o filme foi de que agora eles estavam "comprando a briga" de maneira direta.



A empresa já estava dando sinais de que estava interessado em trazer para seu público a problemática racial enfrentadas por pessoas negras, disponibilizando em seu catálogo séries como The Get DownLuke Cage e Chewing Gun. O que difere Cara Gente Branca das outras é que a abordagem é feita de maneira mais direta, e os assuntos são abordados com profundidade e por um viés pedagógico. O ponto que mais me chamou atenção na trama é a preocupação de enfatizar que nenhum negro é igual e/ou passa pelas mesmas coisas. Infelizmente, muitas pessoas erroneamente ainda tem aquela velha impressão de que o impacto do racismo a vida de todas as pessoas negras recaem de maneira igual; ignorando questões importantes como classe social, gênero e o colorismo (expressão que se refere às discriminações sofridas pela cor da pele, e não pela raça em si).

Isso fica evidente na maneira em que os episódios são articulados. Cada episódio traz o arco dramático de um dos cinco personagens centrais: Samantha White (Logan Browning), Reggie (Marque Richardson), Colandrea "Coco" (Antoinette Robertson, Troy Fairbanks (Brandon P Bell) e Lionel (DeRon Horton). ASamantha já traz uma abordagem de como em muitas ocasiões a militância pode ser exaustiva; e nos faz perceber que pessoas estão envolvidas na luta anti-racista não odeiam ou querem "exterminar" todas as pessoas brancas do mundo. Para alguns, ela pode soar como agressiva, mas aí entra a questão: como exercer uma militância pacifista, quando o racismo está sempre com uma "arma apontada" para você?. Claro que existem pessoas que tratam e militam a causa racial com mais afetividade. Mas isso varia de cada um para cada um. Das suas vivências, e daquilo que ela já experienciou. Empatia sempre, gente. Empatia!



Reggie é um personagem interessantíssimo. Ele já traz o homem negro mais sensível, fugindo daquele esteriótipo comumente proliferado não só nos Estados Unidos, como no mundo, de que todo homem negro é violento, bruto e agressivo. Este personagem desmistifica tudo isso de maneira sutil, e traz um personagem maduro, inteligente, articulado e sensível. Que gosta de poesia. Que gosta de coisas que até então sempre fora associado aos fenótipos eurocêntricos (inclusive, uma das cenas mais marcantes está  no episódio que traz o arco dramático dele). 

Coco já traz a questão da solidão da mulher negra e do colorismo (não vou me ater muito sobre estes dois assuntos, pois é complexo, e existem pessoas que podem falar disso com muito mais propriedade que eu). Quando falamos de racismo, falamos da sobreposição de uma raça sobre a outra. No caso, da raça branca sobre a negra. E quando uma raça é sobreposta, obviamente ela sofre de exclusões e preterimentos. Preterimentos nos fenótipos, principalmente. E a personagem traz essa questão de maneira bem direta. Mulheres negras desde sempre são preteridas por mulheres brancas porque o cabelo crespo/cacheado não é o ideal.Quanto mais a pele da mulher for escura, menos chance ela tem de se dar bem na relação afetiva. E com ela não é diferente. Vemos o dilema dela em relação ao seu cabelo, à sua cor, ao modo como os homens a enxergam. Não vou mentir, ela é a minha personagem preferida!

Troy já vem nos mostrar como o racismo se articula quando a pessoa negra em questão possui poderio financeiro e social. O arco dramático dele derruba o argumento que algumas pessoas proferem de que o problema "não é porque a pessoa é negra, e sim porque é pobre". Realmente, a questão de classe está atrelada à questão de raça. Só que, mais que social, o racismo é uma questão cultural. E claro que o impacto da mesma vai recair de maneira distinta em pessoas negras de classes sociais opostas. Mas, mesmo que essas articulações sejam diferentes, os danos podem ser tão graves e irreversíveis tanto para o "negro rico" quanto para o "negro pobre". Inclusive, um dos episódios que traz ele como o grande protagonista é bem pesado.

Lionel já traz o negro gay e nerd. É muito intrigante o plot dele, pois nos faz perceber como o universo nerd pode ser racista e quase sem representatividade. Podemos perceber isso observando à nossa volta. Quantos super-heróis e super-heroínas negros temos? (Só lembrei do Super-Choque), agora, quantos super-heróis e super-heroínas brancas? Quantos personagens negros de grande importância temos nas franquias mais famosas como Harry Potter, Senhor dos Anéis ou StarWars? Entendem a importância de se discutir essas questões?. Fora, o fato dele ser gay. A maioria esmagadora dos romances gays sejam em livros ou filmes/série, trazem caras brancos, com problemáticas características do gay branco. Por isso a importância de Moonlight ter vencido o Oscar de Melhor Filme, pois além de trazer 99% de personagens negros, narra a história de um cara negro gay de maneira extremamente sensível (inclusive recomendo demais esse filme). Representatividade, meus caros. Isso importa demais!



Enfim, gente. Espero que eu tenha conseguido despertar a curiosidade de vocês para dar uma chance a essa série maravilhosa, e que traz reflexões importantíssimas não só sobre o que é ser negro, mas também sobre privilégios. Vou deixar alguns artigos sobre colorismo, a solidão da mulher negra e esteriótipos negros para o caso de vocês terem interesse de se aprofundarem mais sobre o assunto. Ah, e assistam, gente! Recomendo com força essa série.

links:








9 Comentários

  1. Olá Geisiane, tudo bem?
    Se eu não estiver enganada, foi essa a serie que chegou causando polêmica antes mesmo de estrear, quando alguns clientes "brancos" se sentiram ofendidos e decidiram cancelar a assinatura. Bem, confesso que isso por si só já me motivou a assistir e agora com a sua critica super positiva vou correndo conferir.
    Obrigada por compartilhar conosco as suas impressões.
    Beijos

    ResponderExcluir
  2. Estou de olho nessa série há um tempo, justamente por esse ponto de vista crítico contra manifestações racistas, o que é super importante de ser combatido atualmente. Fico feliz que a Netflix esteja trazendo um catálogo interessante, espero assistir a série em breve.

    xoxo

    ResponderExcluir
  3. Que série! Que dica! Realmente não a conhecia e sei que seria uma ótima pedida para mim neste momento, gosto de séries que abordam esse tipo de assunto, principalmente sobre o maldito preconceito, ótima dica e anotei!
    Beijinhos

    ResponderExcluir
  4. Uaau! Essa é a segunda vez que vejo indicação dessa série e dessa vez ela veio em uma hora bem propícia, pois estou lendo Meio Sol Amarelo da Chimamanda Adichie e estou amando!! Assim que chegarem as minhas férias, vou assistir essa série incrível!! =D

    ResponderExcluir
  5. Oi, tudo bem? Puxa, sua resenha está de arrasar, amei! <3
    Eu tô com esse seriado na minha lista, mas cadê tempo? Gostei muito de você descrever e situar as personagens dentro da trama, me fez ter mais vontade ainda de conhecer a trama. Sempre acreditei que uma narrativa - seja na literatura, no cinema, na TV - precisa consistir, primeiro, de bons personagens que sustentem a trama e, com certeza, estes personagens parecem incrivelmente bem trabalhados! Só não entendi o que você disse sobre as discriminações sofridas serem mais pela cor da pele do que pela raça (achava que o não dava pra falar de racismo sem falar de raça).
    Obrigada pela resenha incrível, com certeza ver assistir esta depois de The Handmaid's Tale! :)

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com

    ResponderExcluir
  6. Não conhecia essa série e parece bem interessante. Mais uma série para dar cinta.... é a vida! hahahaha
    Obrigada pela dica. bjs

    www.livrosdabeta.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  7. Oi Geisiane, já tinha ouvido falar sobre a série, mas por ser na netflix acabo não acompanhando. Acho que para quem tiver chance de ver, é uma boa opção.
    Bjs, Rose

    ResponderExcluir
  8. Oi.
    Amei a dica e vou assistir à série sim.
    Gostei muito do modo que você expôs as problemáticas trabalhadas, seu texto ficou muito didático e acho que informação é o caminho para tudo. Vou ler os artigos, até porque, para ser sincera, eu preciso de mais informações quando se trata desse assunto.
    Amei o post.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  9. Hello!
    I loved the post, I didn't know your blog and I followed it, would you follow mine back?

    Greetings!
    Obsesión por la lectura

    ResponderExcluir