Título: Apenas Um Garoto
Autor: Bill Konigsberg
Ano: 2016
Editora: Arqueiro
Páginas: 256  Skoob: Adicione
Comprar: Amazon
Cortesia: Livro cedido pela Editora Arqueiro*

Sinopse:Rafe saiu do armário aos 13 anos e nunca sofreu bullying. Mas está cansado de ser rotulado como o garoto gay, o porta-voz de uma causa. Por isso ele decide entrar numa escola só para meninos em outro estado e manter sua orientação sexual em segredo: não com o objetivo de voltar para o armário e sim para nascer de novo como uma folha em branco. O plano funciona no início, e ele chega até a fazer parte do grupo dos atletas e do time de futebol. Mas as coisas se complicam quando ele percebe que está apaixonado por um de seus novos amigos héteros.

- Acho que devemos ficar felizes por você poder fazer essa escolha hoje – falou. – Tenho certeza de que esta situação não aconteceria dez ou vinte anos atrás. Já é um avanço, não é?

Esse foi um livro que me surpreendeu positivamente, gente. Todos os livros com temática LGBT que li antes deste, tratavam a realidade dessas pessoas de maneira triste, marcada por muitos preconceitos, e intensas lutas por inserção dentro da sociedade, e pela aceitação dos mesmos não só nessa mesma sociedade, mas dentro da própria família, dos próprios pais, daqueles que deveriam ser a rede de segurança, apoio e suporte em momentos conflituosos (o que infelizmente acontecem com a maioria das pessoas que fazem parte dessa comunidade). Então, eu só conhecia essa realidade.  Mas, Apenas Um Garoto vem nos mostrar a história de um garoto que é gay, assumido desde os 13 anos, e que tem uma relação muito bonita, afetuosa e sólida com os pais. Mas não é apenas isso.
O livro tem como temática principal a questão dos estereótipos. De você julgar uma pessoa pelo seu comportamento, cor de pele, condição física, orientação sexual... enfim, pela sua escolha ou não.

- Bryce e eu sempre conversamos sobre isso. Ele diz que, se a Natick fosse um microcosmo do país, poderíamos muito bem ainda ter instalações separadas, mas iguais. E não só uma questão de brancos e negros. Atletas. Nerds. Maconheiros. Ninguém é considerado apenas um ser humano, ao que parece.
-Eu quero ser apenas um ser humano!
- [...] as pessoas vivem me rotulando, quero ficar livre disso.

Vocês já foram rotulados em alguma fase da vida? Ou já rotularam alguém por algum comportamento?
Acho que é praticamente impossível, já que estamos todos nos dois lados da moeda. É condicionante à nossa existência. Catalogamos pessoas, dividimos, diferenciamos, e assim vamos fazendo desde os primórdios. Gostei muito disso como plano central do livro, já que a propagação do estereótipo se dá em muitos espaços, inclusive em lugares que deveriam ser pautados na inclusão e culto às diferenças. Culto não no sentido de tolerância, mas de celebração, como o próprio autor do livro propõe. Falando em diferenças, isso nos leva a outro ponto interessante.

Na narrativa o Rafe, personagem principal do livro, só quer levar uma vida normal, onde as pessoas não gostassem dele ou quisessem ele por perto por ser gay. O que é totalmente válido e compreensível, uma vez que eu enquanto mulher negra, detesto quando alguém me fala coisas como: “seu rosto é delicado para uma negra” ou o clássico: “seu nariz é fino, apesar de ser negra”. É chato? MUITO. Incomoda? DEMAIS. Mas essas características fazem parte de mim, e não posso desconsiderá-las dentro do meu processo de reconhecimento enquanto mulher negra.

Essa é a principal batalha que o Rafe (na minha opinião) passa durante toda a estória: saber que todos nós somos humanos, e que devemos ser trados com dignidade, respeito e direitos. Mas, que apesar de sermos todos humanos; somos subjetivos, particulares e que NÓS devemos abraçar e ter orgulho dessa particularidade, para que aí sim, possamos de fato lutar por pela igualdade plena de direitos. E que as pessoas nos devem respeito mesmo nas diferenças. E de não termos que tentar nos misturar, se passar por alguém que não somos só para conquistar mais respeito, ou pela simples busca pela aceitação.
Isso se deve também ao fato do Rafe nunca ter passado por preconceitos nem na escola, nem na comunidade, nem na família. Ele foi abraçado. Ele nunca soube como é ter que lutar para ser quem é, ou para as pessoas aceitarem a sua sexualidade, ou para a própria família o reconhecer enquanto ser humano. Pessoas lutam para ser quem são, e o orgulho de sermos nós mesmos vem em boa parte disso. Principalmente quando você pertence a um grupo oprimido e tem que lutar para ser quem é, para poder ajudar e lutar junto com outras pessoas que passam (ou já passaram) pela mesma situação. Era isso que o Rafe precisou compreender.

Outra coisa muito interessante que o livro aborda, é a questão do racismo: “Olhei em volta. Em uma sala cheia de rostos brancos, Bryce era o único negro”, “Olhei para Bryce. Era como se ele não estivesse lá. Steve falava dele, e não com ele. Era estranho”. É curioso perceber como o racismo é multifacetado. Quando você é pobre, preto e periférico ele se dá uma forma. Quando você tem poder aquisitivo, ele se articula de maneira diferente, mas sempre com o mesmo propósito: mostrar para o povo negro que seu lugar é de subserviência. É por isso que o Bryce era invisibilizado e sua vivencia era calada naquele espaço.Porque ele era um “ponto fora da curva”. E infelizmente isso acontece muito, principalmente em Universidades e em cursos tradicionalmente elitistas como Direito, Medicina, Engenharias, etc.

É um livro com uma leitura muito válida, gente! Trata sobre a busca e percepção da própria identidade de uma maneira leve, divertida e com muito sarcasmo.
Espero que tenham gostado da dica. Até a próxima!






26 Comentários

  1. Adorei. Amei a resenha Geisiane. O mundo esta cheio de pessoas que gostam de rotular outras. Não é só o preconceito, mas essa carga tbm incluída pesa ainda mais.
    Gostei de ver a temática voltada para um outro caminho. Nem sempre quem é gay não é aceito, alguns sim e outros não. Bom saber que tem um livro mostrado uma outra faceta também.

    O ser humano tem que aprender que todos somos seres humanos independente da raça, cabelo, opção sexual e etc...

    www.primeiras-impressoes.com

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    1. olá, Mary :)

      Foi justamente por isso que achei o livro super interessante, pq mostra uma outra faceta sobre a homofobia, e como ela se articula de maneira diferente na vida das pessoas. Também espero que a nossa sociedade evolua, e que enxerguem q todas as pessoas devem ser tratadas com respeito e dignidade.

      beijooos

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  2. Olá Geisi, tudo bem?

    Eu até tive interesse em fazer a leitura deste livro, logo que ele foi lançado, há um belo tempo atrás. Mas acredita que eu acabei me esquecendo? Só agora com sua resenha que me lembrei, rs. Fica na lista para uma futura promoção, pique a Black Friday, rs.

    Beijos

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    1. olá, Pamela :)

      tá certo haha, quando vc tiver com o livro em mãos, espero q tenha uma ótima leitura!

      beijoooos

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  3. A premissa do livro é ótima e me alegra ver que tem ganhado espaço nas estantes dos jovens hoje em dia livros assim. Eu, atualmente, to com um ranço com personagens jovens e/ou adolescentes tão grande to correndo às léguas de qualquer livro que os tenha como personagens principais. Fico muito feliz que tenha curtido a leitura.

    Raíssa Nantes

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    1. olá, Raissa :)

      te entendo completamente! Gostei do Rafe pq ele tem o humor muito semelhante ao meu. Não é melodramático, pelo contrário, é muito sarcástico. Adoro personagens assim

      beijooos

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  4. Oi, Geisi, também li este livro e tive uma impressão bem positiva, por apresentar esta temática por um olhar diferente de outras obras. Estou curiosa para ler a continuação, espero que seja publicada no Brasil. Beijos!

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    1. olá, Beta :)

      tbm tô super curiosa, apesar de achar que o livro teve um final bem fechadinho, sem a necessidade de uma continuação. Mas vamos ver quais surpresas nos aguardam no segundo!

      beijooos

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  5. OOi!
    Que premissa ótimaaa! Hoje, infelizmente, tem muito disso, né? Muitos dizem não ter preconceito nenhum com LGBTs, mas no fundo, embora talvez nem se de conta, vê a pessoa como "o gay" e não como a própria pessoa. Igualdade mascarada isso ai!
    Fiquei com muita vontade de ler livro, eespero ter a oportunidade. Amo essas obras que tratam sobre assuntos sociais de maneira leve e divertida, ainda fazendo com que o leitor reflita. :)

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    1. olá, Catrine :)

      Pois é. Por isso q eu gostei do livro. São tantos assuntos pra debate! Espero q quando tiver a oportunidade, vc tenha uma ótima leitura

      beijooos

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  6. Oii Geisiane, tudo bom?? Ótima resenha!! Sempre vejo comentários muito positivos sobre a obra e tenho muita vontade de lê-la, pois gosto do assunto abordado e acho que o autor abordou tudo de uma forma diferente, com um protagonista bem reflexivo. Espero ler muito em breve e gostar bastante também :D
    Beijos!

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    1. olá, Gabrielly :)

      Epero que desfrute da leitura tanto quanto eu

      beijoooos

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  7. Olá!
    Estou com esse livro para ler aqui e sempre acabo esquecendo! Mas adorei a sua resenha e reacendeu a chama para a vontade de ler, sem falar que eu não sabia que tratava de racismo também, dois temas muito importantes em um único exemplar.
    Beijos.

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    1. olá, Carolina :)

      super importantes! Espero q vc tenha uma ótima leitura

      beijaaaao

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  8. Ganhei de Natal. Parece ótimo. Ótima resenha.

    Quem quiser fique a vontade pra visitar meu blog também http://cronistaindeciso.blogspot.com.br

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  9. Confesso que não gosto muito de ler livros desse tema justamente por sempre trabalhar a opressão de quem não se assumiu, as lutas para poder dizer a alguém e todo esse preconceito. Às vezes isso se torna maçante pra mim. Mas esse livro me chama a atenção justamente por mostrar o outro lado, que pouco é retratado e isso me anima mãos. Pretendo ler algum dia.
    Bjim!
    Tammy

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    1. Olá :)

      pois é, mostra por uma outra perspectiva. Espero que tenha uma ótima leitura

      beijoos

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  10. Oi Geisiane, sua linda, tudo bem?
    Adorei seu texto!!! A análise que você fez do Bryce é perfeita!!! Eu confesso que não tinha tido essa percepção. Esse livro me surpreendeu, eu gostei muito da forma como o autor abordou os rótulos e de como o personagem vive o dilema de ser aceito por pessoas que ele não admira e para isso ter que rejeitar seu companheiro de quarto e o amigo dele. Ótima resenha!!!!!
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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    1. olá, Cila :)

      tbm adorei a forma como o autor abordou os assuntos. Gostei muito da escrita dele. Quanto ao Bryce, esqueci de falar na resenha sobre a depressão que ele tinha, o arco dele me deixou bem triste. É um tema que merecia atenção

      beijooos

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  11. Olá, tudo bem? De tudo que vocÊ falou na resenha, adorei ver como o racismo foi trazido, e como vemos que ele está onde menos imaginamos nesse mundo em que vivemos. Vou sim buscar ler ele o quanto antes, quero poder sentir esse dilema por perto, e os medos e receios de cada personagem.

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    1. olá :)

      fico feliz em saber que o livro te chamou atenção. Missão cumprida haha. Espero que desfrute e problematize muito o livro

      beijooos

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  12. Geisi, tudo bem?

    Adorei sua resenha! Todos os pontos que você levantou para ter gostado da leitura fizeram muito sentido. Tive um sentimento semelhante. Tem um outro livro, com a mesma temática, que talvez você goste; tem alguns pontos semelhantes ao Apenas um garoto (fala sobre partes ruins, mas também sobre partes boas; como o apoio da família e amigos por exemplo. Aborda o preconceito também). O livro se chama Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo. Não é um romance contemporâneo, acho que se passa na década de 80. Muito bom! Resenhei lá no blog, caso queira conferir ;)

    Beijo,
    Leitoras Inquietas

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    1. olá, Krisna :)

      Vou ler ele em fevereiro! Esse vai ser o livro do mês, no Clube do Livro q participo aqui onde moro. Acho que vou gostar bastante!

      beijaaao

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  13. Olá!
    Adorei sua resenha! Gostei muito da premissa do livro. Gosto de livros com essa temática, eles me deixam bem presa à leitura. Não é qualquer autor que consegue trabalhar bem o racismo nos livros e pelo que você nos conta Bill Konigsberg conseguiu alcançar bem o seu objetivo.
    Obrigada pela dica.
    bjs

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    1. olá, Taisa :)

      conseguiu e com louvor haha. Ele trata os assuntos com muita sutileza, achei isso genial

      beijoos

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